Sei que uma pessoa, ao ler este texto vai chorar. Sei que outros ao lerem não irão entender. Mas sei que estas palavras tinham de ser escritas.
Pode-se amar um animal como se ama uma pessoa. Passa a ser parte da família. Ela funciona integrando o animal. Condiciona-se a ele. Age-se em função da sua existência e das suas necessidades. Por isso, quando esse animal parte, deixa a mesma dor e o mesmo vazio. Sei isso porque haverá sempre um lugar vazio deixado por uma pessoa e sei-o porque o vazio que um animal (hoje) deixou, provocou a mesma reação de perda.
Há algum tempo que não choro. O choro, como o riso, faz parte da vida, das emoções que regulam o comportamento. Expressam sentimentos, por isso, chorar deve ser tão aceite socialmente como o sorriso. Por vezes, interrogo-me se a sensibilidade me abandondou. Como é possível recordar a perda vivida e não chorar? Quem já passou por situações semelhantes (e ainda bem que não é a norma, mas a execção, embora existam milhares por esse país fora, mas se evitem, como se evitar as tornassem menos reais, como se falar delas normalmente fosse algo de anormal), dizia eu que, quem já passou pela perda de alguém muito querido, sente, por vezes, culpa de continuar a sorrir e sorrindo questiona-se sobre se a normalidade não seria o estado choroso, em permanência. Cada um lida com as perdas o melhor que consegue, porém o tempo de luto é fundamental. Aceitá-lo é necessário. Mais ou menos imediato, mais ou menos prolongado, com as reações que melhor ajudem a reencontrar o equilíbrio; porque o equilíbrio é a chave da própria sobrevivência.
Hoje chorei. Não muito, mas foi inevitável. Outra pessoa está inconsolável. Sei o que é. Vai ser necessário tempo para que a vida reencontre o seu equilíbrio e, pouco a pouco, a perda não se sinta de modo tão violento. Irá sempre ficar a saudade. A recordação dos olhos brilhantes, das brincadeiras, da interação, da inteligência e do afeto.
O cão, como nenhum outro animal estabele uma relação quase humana com os donos e estes passam a percecionar o animal como um elemento da família. Ridículo? Não para quem entendo o que digo.
A Zita era uma rafaeira, arraçada de podengo. Encontrada numa lixeira, abandonada, quando era um bebé minúsculo lembrando um cão "a pilhas". Cresceu numa família que a adotou. Foi uma cadela feliz. Amada. Mimada. Cuidada. Hoje morreu. E é essa morte que é chorada.
Os animais sentem a falta das pessoam a quem se dedicam e as pessoa sentem a falta do animal a quem dedicaram uma vida de afeto.
À Zita (pode-se homenagear um animal? Não importa a resposta.) uma homenagem, neste post, de carinho por ti, cadela "estúpida" e aos teus donos que te querem muito.
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